Quando Alan Moore teve a idéia de criar uma minissérie com os personagens da Charlton Comics, intitulada Who Killed the Peacemaker, ele não sabia que estava criando a mais revolucionária revista em quadrinhos da história, além da principal responsável por aproximar uma mídia, antes considerada infantil, definitivamente, do público adulto. Ou talvez soubesse de tudo isso, afinal estamos falando mago barbudo inglês, um dos mais visionários criadores do mundo, incluindo aí todas as mídias. Quando entregou o embrião do que seria Watchmen, Dick Giordano, o editor da DC que o recebeu, fez então uma coisa fundamental para o real sucesso da empreitada: desgarrou o roteiro que tinha em mãos dos abobalhados personagens da Charlton, dando liberdade para Moore criar algo totalmente novo, mesmo que inspirado neles. A ambição de Moore foi ainda mais longe. Ele não ficou satisfeito em criar apenas mais uma revista, mais uma minissérie; ele tratou logo de abalar todos os alicerces sobre a qual estava fundamentada toda a indústria de quadrinhos, com heróis endeusados, tidos como infalíveis. À partir de Watchmen - e de
O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, lançada um pouco antes - tudo isso mudou. Tanto que Moore foi acusado de ser o assassino dos super heróis, que nunca mais obtiveram o status que tinham outrora.
À partir sucesso, tanto crítico, quanto comercial (ela está em catálogo a mais de vinte anos, vendendo milhões de exemplares, e enchendo os bolsos de muita gente, inclusive de Moore), de Watchmen, a indústria de quadrinhos viu começar a fase dos heróis realistas, que se juntaram à fase adulta e mais criativa da DC, capitaneada pelo selo Vertigo, que despontou gente como Grant Morrison, Neil Gaiman, Garth Ennis, além do próprio Moore, que transformou o Monstro do Pântano em um símbolo cult. Com essa fase nos acostumamos a menções à drogas, distúrbios psicóticos e sexuais, violência e morte de inocentes, ou tudo isso junto, em histórias de super heróis. Mesmo com coisas de baixíssimo nível, como praticamente qualquer gibi da Image Comics, tivemos, para compensar, as tramas de Mark Millar e Warren Ellis, que transformaram
Autorithy e
Planetary em expoentes da boa fase (mesmo que violenta) dos super heróis modernos.
Mas os valores de Moore para a criação de grande parte dessas histórias (inclua aí, por exemplo, as tentativas de J. Michael Straczinsky de criar tramas adultas em Rising Stars e
Poder Supremo, só com a última obtendo qualidade) foram desvirtuados, ficando somente a violência, e o uso de artifícios não tradicionais, como drogas e homossexualismo entre os heróis. O motivo para isso é óbvio: falta para esses roteiristas, a inteligência de um Moore, um Morrison, ou um Ellis, para a criação de algo completamente diferente e quebrador de paradigmas como Watchmen, Os Invisíveis, ou Planetary. O que sobrava (e ainda sobra) geralmente era algo grosseiro e gratuito, sem contextualização. Os socos, sangue e decaptações dessas histórias não tinham motivação, a não ser a figura do herói descontrolado e amargurado.
Com os vigilantes tivemos a fantástica trama de fundo, usando e abusando de elementos críveis para a sua construção. Vemos Nixon, seu nariz aquilino e inchado, assim como sua gana pelo poder, já perpetuado com o terceiro mandato; temos o perigo do Holocausto Nuclear, e temos um Deus misto com Superman, quase neutro a todas as movimentações. Sim, pela primeira vez pudemos vislumbrar como realmente seria o mundo com a presença de heróis na porção mais importante do século passado. O roteiro da grahic novel explora isso com autoridade, ao avançar com uma precisão matemática, discorrendo em todo o contexto dos deprimentes anos 40, passando pela década de 60, até chegar aos delirantes anos 80, época em que, na trama, o mundo está mergulhado no cada vez mais crescente medo nuclear, com duas superpotências cada vez mais com os nervos à flor da pele.
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